Palavras que substituem palavras
Acho sempre interessante observar a evolução do léxico no universo social, político, e obviamente no mundo da gestão. O meu interesse pelo tema começou no dia em que se começou a chamar à actividade profissional que exerço – chamada então jornalismo... – a obtusa designação de “produção de conteúdos”. Passei vinte e tal anos a fazer jornalismo – ok, se preferirem, a “produzir” jornalismo... – e de um dia para o outro passei a “produzir” “conteúdos”.
O ser humano habitua-se a tudo e não fui excepção – hoje já não fico “encanitado” quando me falam dos conteúdos. Aqui estou, neste blog, a produzir mais um conteúdo. Em rigor, 1400 caracteres de conteúdo.
Mas entretanto outras palavras substituíram palavras existentes. Esta semana morreu, aos 16 anos, a revista “Rotas & Destinos”, que foi lançada pela “Ferreira & Bento” e mais tarde comprada pela Cofina. Na notícia do Público online o lead era este: "A Cofina vai descontinuar a publicação da revista Rotas & Destinos, já a partir do próximo mês”, confirmou esta tarde ao PÚBLICO uma fonte oficial do grupo”.
Antigamente as revistas acabavam ou fechavam. Houve um tempo intermédio em que se “suspendiam” publicações.
Agora, não: agora as revistas são "apenas" descontinuadas. Deixam de ser produzidas naquela fileira da fábrica. Não continuam. Não quer dizer que acabem. Não quer dizer que regressem. Quer dizer o quê? Alguém pode ajudar?
E os que lá trabalham? São suspensos, despedidos, descontinuados, ou ficam à espera?
Se eu trabalhasse numa revista “descontinuada”, exigia a descontinuidade: não continuava a trabalhar, mas não deixaria de receber. Porque isso já seria “desreceber”. E a revista não foi “desrecebida”. Foi “apenas” descontinuada.
Parece brincadeira. Mas é muito sério.