Perder a oportunidade
Passo a vida a ouvir o lugar-comum salvífico: a crise é um momento importante para criar novos caminhos, para inovar, para renascer. A crise é em si uma oportunidade.
Acredito que sim. Mas noto que, na minha área de actividade, a crise tem servido para acentuar a crise. E ficar no mesmo lugar.
O que eu esperava da imprensa-em-crise num momento como este era, afinal, a chave do problema: explicar, enquadrar, ajudar a perceber, ser clara, mostrar caminhos, usar a escolha e a análise para iluminar o que diariamente nos parece obscuro. Quando passo pelo Economist, quando irregularmente compro a Atlantic, nas edições de fim-de-semana do El Mundo, no Sunday Times, em artigos soltos que apanho nos jornais de economia internacional, ou mesmo nos seis euros bem pesados que me custa a brasileira Veja, eu encontro esse lugar de pacificação com a realidade. Como se me dissessem:
- Pedro, senta-te, bebe um café, vamos lá organizar ideias...
... E este é seguramente parte de um qualquer futuro que os media venham a ter no mundo global e “turbinado” pela internet. Cada vez mais pedimos ao “nosso” jornal, à “nossa” revista, que nos ajude a perceber o mundo, que nos mostre um quadro perceptível do que sucede, que nos guie pelas entrelinhas do excesso de informação. Eu quero que me hierarquizem a informação, que me ajudem no labirinto de números e factos, que inovem e criem para me inspirar.
Mas aqui ninguém pensa nisso. O limite é a capa da Visão de ontem: “Como resistir aos tempos difíceis”... Mas eu preciso que me ensinem isso agora, por deus? Quantas capas destas já vi nas bancas portuguesas este ano?
Ao lado, a concorrente Sábado promete “100 coisas que não sabe sobre o corpo humano”. Para lá da falta de imaginação nos temas e da duvidosa forma de escrever português – O meu corpo tem coisas? O que são coisas? -, parecem ambas revistas antigas. Se não são edições do ano passado, podiam ser.
Já tinha notado que, apesar do momento de excepção que o nosso mundo vive neste 2011, as revistas não fugiram ao lugar-comum das capas sobre dietas em Abril, sobre sexo e lugares paradisíacos (sempre “por descobrir”...) no Verão, sobre saúde e aulas e jovens em Setembro, e não tarda estão a falar sobre o Jesus desconhecido e os lugares onde (por menos de cem euros, claro) passar o reveillon.
Em que lugar ficou a pergunta mais clássica: o que querem hoje, nestas circunstancias excepcionais, as pessoas (também cada vez mais excepcionais) que (ainda) gastam (excepcional) dinheiro comprando uma revista ou um jornal?
Estupefacto por ver que a maioria da nossa imprensa não está a aproveitar a crise para fazer dela uma oportunidade, poupo os euros que gastava semanalmente em revistas portuguesa e, com o mesmo dinheiro, vou alternando entre revistas e jornais internacionais que me ajudam a enquadrar o mundo e perceber para onde vamos. Às vezes até aprendo sobre Portugal, veja-se o paradoxo...
Fica sempre a pairar sobre a minha cabeça a mesma interrogação: qual é a parte do “isto mudou mesmo tudo” que por cá ainda não se percebeu?