Memória muito cá de casa
Quando verifico que amanhã o bar/discoteca Lux assinala o seu 15º aniversário, solto o inevitável “bolas, isto passa tudo a correr”, e recuo no tempo. Não ao ano da abertura, mas ao ano seguinte: 1999. Desafiado pelo Gonçalo Bullosa e pelo António Lobato Faria, aceitei juntar mais de vinte anos de crónicas, escolher as que entendia terem existência para lá do dia em que foram publicadas, e compor um livrinho que seria a primeira obra da nova editora "Oficina do Livro". Chamei-lhe “Noite em Branco”, porque a soma daqueles textos resultava de muitas noitadas de escrita solitária. E ousei sugerir que o lançamento, para variar dos sítios do costume, fosse justamente no primeiro andar do Lux. Confesso que, quando lancei a ideia, julguei-a impossível – pelos custos financeiros, por ser fora da caixa, por tudo. Mas a Oficina do Livro era, naquele arranque, um sonho onde tudo se concretizava – e o Manuel Reis nunca deixou de ser um homem aberto ao novo. O encontro foi feliz – e o meu primeiro livro, “Noites em Branco”, também o primeiro da “Oficina do Livro”, foi mesmo lançado no Lux, estreando uma possibilidade que depois se repetiu com muitos outros autores e livros. Foi uma noite intensa, emocionante, inesquecível. Publicar um livro, pelo menos um primeiro livro, é uma outra forma de ser pai.
Passaram 14 anos. Publiquei mais dois livros. Vou pensando em novas ideias – quem sabe, um dia destes volte a publicar. E quem sabe se volto ao mesmo Lux onde amanhã faço a clássica "saúde!" a 15 anos de sucesso e felicidade. Eu acredito que se pode mesmo voltar a um lugar onde fomos felizes.
