No comboio ascendente
Há anos que não vinha ao Porto de comboio. Boa razão aqui me traz (e a partir de agora, com regularidade): um saboroso regresso à RTP-2. Da novidade darei conta logo que haja certezas de datas e horas e esses pormenores.
Para agora, interessa apenas o prazer de uma viagem de comboio. Parece que se juntam memórias vivas e bocados de romances lidos, filmes vistos, canções ouvidas. Não deve ser por acaso que há tantas cenas deslumbrantes de filmes passadas em estações de comboios, em carruagens, em viagens.
(Claro que sei que o romantismo se esvai na rotina, no tempo perdido, na banalização. Mas, por agora, gozo a excepção do começo.)
Viajo para o Norte ao anoitecer e revejo, à saída na estação de Gaia, junto a carruagens velhas cheias de toros de madeira, a imagem de Diane Keaton e Warren Beatty abraçados, junto ao comboio que os separará, nos “Dez Dias que Abalaram o Mundo”, um dos clássicos (livro e filme) do final da minha adolescência. A referência não faz qualquer sentido nem tem lógica - mas a viagem e aquele cheiro a madeira levou-me tão longe quanto isto…
A cabeça de uma pessoa também é esta mistura desordenada de bocados de vida. Vivida. Por viver. Vivida através da ficção. Ou apenas sonhada.
