Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Pedro Rolo Duarte

09
Jan14

Chorar nos enterros é fácil

A notícia de que o espaço do cinema Londres vai virar Loja do Chinês incomoda e entristece qualquer pessoa que, como eu, viva há quase 50 anos entre a Avenida do Brasil e a Praça de Londres. Tenho autoridade redobrada para falar: o meu pai foi quem delineou a (bem sucedida) campanha de promoção e lançamento do cinema, no principio dos anos 70, com o filme “Morrer de Amor”; e até fechar, preterindo mesmo a qualidade técnica de outras salas, sempre que um filme que queria ver estava no Londres, era lá que eu o via. Por facilidade, proximidade, porque sim.
Dito isto, as noticias das petições para salvar o Londres, para não deixar que ali se instale a dita Loja do Chinês, para que a cultura não perca mais um espaço, também me incomodam. Muito. O suficiente para lembrar que:

  • Conhecendo eu, nem que seja de vista, a esmagadora maioria dos lojistas daquele bairro (autores de uma das petições…), nunca vi qualquer deles frequentar o Cinema Londres (especialmente quando ele mais precisou de espectadores). Nem eles nem muitos dos cinéfilos que andam pelo bairro a queixar-se, mas “sacam” filmes da net, pirateiam DVD’s, ou preferem as pipocas de outras salas.
  • Se o Cinema Londres fechou não foi seguramente por vontade de quem se viu confrontado com a falência. Foi porque as regras do livre mercado, a mudança de paradigma no negócio da informação e da cultura, e o famigerado “sistema” - que, convém sublinhar, a esmagadora maioria dos portugueses aprova quando vota nos partidos que o sustentam - assim o ditaram. Estive em dezenas, centenas de sessões do Londres com dois, três, cinco espectadores. Vi amigos que o frequentavam renderem-se à qualidade técnica do Corte Inglês ou de outras salas. Assisti à degradação do mercado com a ligeireza da pirataria. Estavam à espera de quê?

Acho sempre comovente esta união dos portugueses em torno daquilo que eles próprios mataram - e que, se não tivesse morrido ( e tal só sucederia à custa do Estado…), estaria agora a ser criticado como mais um esbanjamento injustificado…
Custa a crer, mas é verdade: a maioria quer isto que estamos a viver. Quer lojas do Chinês no lugar do Londres, boataria na net em vez de jornais, borla em vez de preço justo. Quer na medida em que promove, por negligência ou roubo ou simples ignorância. O resultado vai ser sempre o mesmo. E vai doer.

(Remédio? Não se queixem depois de ajudarem a matar, promovam a vida enquanto é tempo. Queriam o Londres vivo? Fossem lá ver filmes. Querem jornais? Comprem-nos, paguem-nos. Querem cinema de qualidade? Não pirateiem. É fácil. Basta querer. Chorar nos enterros é tão mais fácil.)

2 comentários

  • Sem imagem de perfil

    David Lemos 12.01.2014

    Sim, no Londres também havia preços especiais. Uma ida ao cinema dava um voucher para uma nova ida. A primeira vez que o recebi deixei-o caducar antes de me aperceber que podia ir ver um novo filme de graça.
    Talvez a qualidade de projecção não tenha evoluído o desejável, mas o Londres tinha os sofás mais confortáveis de Lisboa que desciam suavemente quando nos instalávamos. E fazia frequentemente intervalos quando os outros cinemas tinham deixado de o fazer. E não tinha pipocas lá dentro, o que era um alívio.
    Não sou do bairro, não ia ao cinema (Londres e outros) dezenas de vezes (nem centenas) por ano; não o conheci no tempo em que lá se jogava bowling (só ouvi falar). Não me apercebi que estava para fechar senão quando o vi a desmembrar-se.
    É verdade que o estado não pode sustentar tudo (não sobreviveu a Fábrica Stephens apesar de promessas; não sobreviveu o Quarteto e tantos outros cinemas; não sobreviveu a Livraria Sá da Costa...). Mas dá-me pena, muito pena, desgosto mesmo ver todas estas coisas a fechar como se fossem fogachos e não atendendo à importância sociocultural e histórica que possam ter.

    Mas dá-me um pouco mais de desgosto ainda que sejam substituídos - como tantos outros espaços culturais e pequeno comércio - por lojas dos chineses, pois não me parece que estas sejam assim tão valorizadas pelas pessoas (como foi referido em alguns dos comentários que deveria ser um critério para haver uma intervenção do estado); lojas essas que não estão sujeitas às mesmas regras de funcionamento das "lojas de portugueses". O desgosto maior é ver que se desinveste dinheiro e opções políticas no que é nosso e se investe opções políticas (e dinehiro, mesmo que de outro modo) no que não nos diz nada.
    É fácil chorar nos enterros; estou com pena a chorar no enterro do Londres, também porque se avizinham muitos outros enterros.
  • Comentar:

    CorretorEmoji

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

    Este blog tem comentários moderados.

    Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

    Blog da semana

    Gisela João O doce blog da fadista Gisela João. Além do grafismo simples e claro, bem mais do que apenas uma página promocional sobre a artista. Um pouco mais de futuro neste universo.

    Uma boa frase

    Opinião Público"Aquilo de que a democracia mais precisa são coisas que cada vez mais escasseiam: tempo, espaço, solidão produtiva, estudo, saber, silêncio, esforço, noção da privacidade e coragem." Pacheco Pereira

    Subscrever por e-mail

    A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

    Mais comentários e ideias

    pedro.roloduarte@sapo.pt

    Seguir

    Arquivo

    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2016
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2015
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2014
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2013
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2012
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2011
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2010
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2009
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2008
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2007
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D