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Pedro Rolo Duarte

06
Ago08

Coisas estranhas que se fazem em férias

 

Comprar jornais/revistas que nunca se compram no resto do ano.

 

Foi o que fiz hoje, e dei comigo pela noite, no telheiro, a ler a nova versão/revista do “Courrier Internacional”. Confesso que sempre me agradaram os “digest’s” de informação (fui assinante da excelente “Cover”, nos idos de 90 do século passado…), mas nos tempos que correm tenho as maiores dúvidas sobre a viabilidade destas publicações. Pergunto-me a quem podem servir. Em qualquer dos casos, esta “Courrier”, dirigida por Fernando Madrinha, constitui um excelente mix de bons artigos publicados um pouco por todo o mundo.

A páginas tantas, leio um texto (publicado em Junho, no El Pais) sobre “O novo rosto” de Portugal. As obras públicas são a base do elogioso artigo, que relaciona a modernização nacional com a capacidade de vomitar cimento (das máquinas das empresas que depois financiam as campanhas eleitorais de todos os partidos…), e duplicar a paisagem construída. Daí nascem ruas, estradas, prédios e auto-estradas – logo, o país está moderno.

… Mas isso agora interessa pouco.

O que me interessa é que leio, cito, que “os avultados fundos comunitários permitiram a construção de dois mil quilómetros de auto-estradas, que atravessam o país de norte a sul”.

Eu estou na costa alentejana e apetece-me perguntar: e porque raio, no meio desses 2000 quilómetros, se esqueceram de Beja? Beja, senhores?

Beja é distrito e tem capital em Beja. Tem 18 freguesias e mais de um milhão de quilómetros quadrados. É verdade que a cidade tem menos de 40 mil habitantes, e ganha a todo o país na estatística sobre suicídio – mas ainda assim, ou talvez por causa disso, alguém me explica porque motivo se vai a Beja atravessando dezenas de aldeias com semáforos a controlar a velocidade para desculpar o óbvio, que é a falta de uma via rápida? Ou mais directamente: alguém me explica como é possível que não haja estrada decente para uma das 18 capitais de distrito de Portugal?

Leio num documento qualquer na Net que “A Assembleia Municipal de Serpa decide congratular-se com o anúncio do Governo – depois de muitos anos de promessas incumpridas – do arranque das obras do IP8, em Outubro de 2008, no troço Beja/Sines, e da sua conclusão prevista para finais de 2011”. Mas isso não responde em profundidade à minha pergunta: sendo certo que um Governo governa para todos os portugueses, e por isso todos o elegem, porque raio todos os governos dos últimos 30 anos se esqueceram de Beja?

Diz um pragmático junto de mim: “Porque nada se passa lá”. E eu ainda assim pergunto: não são pessoas a governar para pessoas iguais às pessoas que vivem em Beja?

Mas isto já é muita areia para camionetas puramente liberais. Ou socialistas. Ou sociais-democratas. Ou sei lá.

Vou voltar para o mar. Está-se tão bem dentro de água. E quando se mergulha não se ouve nada.

3 comentários

  • Sem imagem de perfil

    Mar 07.08.2008

    Deixa-me cá contrariar esta tendência para "embrutecer alegre e pacoviamente", aproximando-me aqui dos eruditos, espevitados, banhados em cultura e desenvolvimento. anónimos que deixam comentários sobre cidades que, provavelmente, nem conhecem.
    Beja é uma cidade onde os dias correm devagar e se vive sem pressas. Requalificada pelas obras do Programa Polis e por algumas medidas políticas acertadas, como o contrato-programa do tempo de Manuel Maria Carrilho, que permitiu recuperar um Cine.Teatro lindíssimo, o Pax Julia e que, desde então, apresenta uma programação regular capaz de fazer inveja a muitos bons espaços de cultura da capital ou de cidades onde, na percepção do senhor anónimo, se calhar, não se "embrutece alegre e pacoviamente".
    Em Beja percorremos ruas onde monumentos bem preservados ombreiam com casas térreas de habitação, desembocamos em jardins cuidados e assentamos arrais em esplanadas onde nunca falta a imperial e os caracóis ou um petisco de boa carne de porco preto acompanhada de um Herdade dos Grous - daqui de Beja albernoa ), a terra onde se embrutece - um dos melhores vinhos nacionais. Só por um acaso mostrado na Vinipax , uma feira de vinhos iniciada no ano passado na Ruralbeja e que de imediato consolidou público que permite que , neste ano, tenha triplicado de tamanho a nível de expositores vindos de todo o país. Não temos vista para o mar, esse caminho de onde sempre veio o progresso, nem o IP8 - como bem refere o Pedro R Duarte - ainda nos traz com rapidez diária aquilo de que necessitamos para evoluir neste interior onde nunca houve fábricas nem indústrias. Mas asseguro-lhe que somos gente atenta e sagaz, de bem com a vida e capazes de topar bem os "brutos alegres e pacóvios" nascidos e criados nas grandes urbes.
  • Sem imagem de perfil

    Anónimo 07.08.2008

    Ai Mar Mar ... ainda bem que se contenta com tão pouco; pelo menos é feliz, julgamos nós, na sua Béjinha deprimente e cada vez menos apetecível!
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