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Pedro Rolo Duarte

24
Jan09

No Coliseu com Mafalda Veiga

A imprensa “de referência” não lhe dá atenção porque é uma compositora mainstream e uma cantora verdadeiramente pop. A imprensa “popular” não lhe dá atenção porque sendo embora mainstream, não constitui o protótipo da artista popular. Entalada entre preconceitos e tabus idiotas, Mafalda Veiga tinha tudo para dar errado.

Mas deu certo. Construiu uma carreira sólida ao longo de 22 anos, tem um público fiel e dedicado, e sobreviveu à tentação de se deixar sufocar por esta atmosfera cheia de rótulos e capelinhas e grupetas. Os discos são bem pensados, melhor produzidos, e há uma coerência nas canções que faz dela uma autêntica songwriter. O seu elo mais fraco – as letras, por serem repetitivas e frequentemente agarradas às mesmas ideias, frases, conceitos – não interfere no conjunto, porque esse conjunto é consistente, rico e melodicamente equilibrado. Eu gosto muito da música da Mafalda Veiga e impressiona-me o ostracismo para o qual parece fadada.

Felizmente, a imprensa já teve os seus dias no que à influência diz respeito. Quem ontem tivesse ido ao Coliseu percebia isso mesmo: a sala estava cheia como um ovo, e Mafalda fez um brilhante espectáculo compacto de duas horas para um publico que progressivamente se entregou até à rendição. Certamente o mesmo que hoje volta a suceder em mais um Coliseu esgotado.

Eu estive lá. Vi uma construção cénica simples mas de uma eficácia brutal: vídeo, luz (simplesmente extraordinária!), cenografia e sequência musical combinadas na perfeição, criando momentos de energia seguidos de momentos de contenção e emoção, implacáveis no rigor e na capacidade de agarrar o público. Vi uma cantora perfeita, sem falhas mas também sem que lhe faltasse sentimento, entregue à sua paixão, acompanhada por um conjunto de músicos competentes, rigorosos, empenhados. Vi uma plateia rendida, cúmplice, que puxava pela cantora e por ela se deixava levar. Vi e vivi, em resumo, um momento único de boa música, uma noite que me encheu as medidas, que me comoveu, me animou, me motivou. Ao meu lado, o meu filho – que foi quem, realmente, me convidou... – estava igualmente impressionado e rendido: “ela canta mesmo bem”, disse ele.

Saí do Coliseu a pensar, uma vez mais, neste estranho desfasamento entre o que é público e o que é publicado. E sem resposta para tamanho equívoco, deixei-me ir a cantarolar baixinho: “abraça-me bem...”

4 comentários

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    alexandre 24.01.2009 18:29

    Ana C., isto é o quê? poesia de fino recorte?


    "Parado e atento à raiva do silêncio
    Parado e atento à raiva do silêncio
    de um relógio partido e gasto pelo tempo
    estava um velho sentado no banco de um jardim
    a recordar fragmentos do passado

    na telefonia tocava uma velha canção
    e um jovem cantor falava da solidão
    que sabes tu do canto de estar só assim
    só e abandonado como o velho do jardim?

    o olhar triste e cansado procurando alguém
    e a gente passa ao seu lado a olhá-lo com desdém
    sabes eu acho que todos fogem de ti pra não ver
    a imagem da solidão que irão viver
    quando forem como tu
    um velho sentado num jardim

    passam os dias e sentes que és um perdedor
    já não consegues saber o que tem ou não valor
    o teu caminho parece estar mesmo a chegar ao fim
    pra dares lugar a outro no teu banco do jardim

    o olhar triste e cansado procurando alguém
    e a gente passa ao teu lado a olhar-te com desdém
    sabes eu acho que todos fogem de ti pra não ver
    a imagem da solidão que irão viver
    quando forem como tu
    um resto de tudo o que existiu
    quando forem como tu
    um velho sentado num jardim

    passam os dias e sentes que és um perdedor
    já não consegues saber o que tem ou não valor
    o teu caminho parece estar mesmo a chegar ao fim
    pra dares lugar a outro no teu banco do jardim

    o olhar triste e cansado procurando alguém
    e a gente passa ao teu lado a olhar-te com desdém
    sabes eu acho que todos fogem de ti pra não ver
    a imagem da solidão que irão viver
    quando forem como tu
    um resto de tudo o que existiu
    quando forem como tu
    um velho sentado num jardim "
  • Sem imagem de perfil

    Ana C 24.01.2009 23:17

    Alexandre, é claro que não é poesia de fino recorte, porque poesia de fino recorte é esta do Carlos Tê:
    A Primavera da vida é bonita de viver
    Tão depressa o sol brilha como a seguir está a chover
    Para mim hoje é janeiro está um frio de rachar
    Parece que o mundo inteiro se uniu pra me tramar

    Eu não estou a fazer a apologia da Mafalda Veiga. Simplesmente acho que exageraste um bocadinho...
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    Alexandre 24.01.2009 23:52

    risos. bem visto e o exemplo é bem escolhido.

    mas, por exemplo, todas as letras do "auto da pimenta" são excelentes; já as da mafalda veiga são consistentemente más - essa, é claro, é a minha opinião. Versos de pé quebrado cabonde

    (lembrei-me agora de outra, dos classificados, muito má:

    "Escrevi o teu nome na linha-férrea,
    para que o pudesses ler.
    Mas tu passaste a cem à hora
    e sem tempo para o ver.
    Fiz outra tentativa
    e escrevi no alcatrão.
    Mas nessa tosca avenida,
    não passa o teu avião)".

    ora, isto, Mafalda Veiga, João Pedro Pais, Classificados, isto é lirismo indigente. É por estas e por outras que eu não ouço nem compro nem assisto a música nacional. Mas, lá está, è a minha opinião pessoal.

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