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Pedro Rolo Duarte

08
Abr09

Afinal a Cicciolina não entrava no filme

Leio na net uma nota de João Miguel Tavares. Diz o seguinte: “Por muito tentadora que possa parecer a ideia de ir a tribunal discutir tangentes entre o primeiro-ministro e a ex-deputada italiana, há que fazer justiça ao engenheiro Sócrates e ao escritório de advogados do dr. Proença de Carvalho e esclarecer que fui processado por muitas frases desse artigo, mas nenhuma delas inclui antigas estrelas de cinema pornográfico. Lamento pôr em causa tanta criatividade textual e visual que saiu em meu auxílio na blogosfera, mas opiniões são opiniões - e factos são factos”.

Pois é: factos são factos.

… Andou meio mundo a espalhar por aí que o processo se devia à frase “Ver José Sócrates apelar à moral na política é tão convincente quanto a defesa da monogamia por parte de Cicciolina” – e isso deu pano para mangas para a indignação, o protesto, a solidariedade, o gozo, a ironia, e até o abaixo-assinado. Afinal, parece que o processo tem outros contornos, e assenta sobre pressupostos diferentes. Talvez Sócrates queira ver João Miguel Tavares explicar em tribunal o que quis dizer, factualmente e com provas, quando escreveu: “A sua licenciatura manhosa, os projectos duvidosos de engenharia na Guarda, o caso Freeport, o apartamento de luxo comprado a metade do preço e o também cada vez mais estranho caso Cova da Beira não fazem necessariamente do primeiro-ministro um homem culpado aos olhos da justiça. Mas convidam a um mínimo de decoro e recato em matérias de moral”. Atrevo-me a admitir que é mais por aqui que a coisa deu para o torto.

Mas agora a lama já está lançada sobre o processo. E nunca ninguém se lembrará do confronto entre Sócrates e os jornalistas sem citar Cicciolina, ainda que provavelmente não se recorde, no futuro, o que sucedeu efectivamente em tribunal, se algum dia o caso lá chegar…

É claro que a grande virtude da blogoesfera é esta liberdade ilimitada, este caos onde todos podem passear – de alguma forma, um blog é um jornal de que somos simultaneamente redactor, colunista e director, e nessa medida um espaço pessoal sem fim. Mas nesta grande virtude há de vez em quando grande equívoco. Muito excesso. E frequentemente pouco ou nenhum rigor.

Se calhar, boa parte dos argumentos contra Sócrates – no essencial, perseguir a liberdade de expressão – desaparece quando se conhecer em pormenor o processo. O que eu gostava era de saber quantos dos que escreveram sobre o tema, usando a frase onde se fala de Cicciolina, terão agora a sensatez e a seriedade de emendarem o tiro. Afinal, se o mundo dos blogues é "viral" para espalhar um boato, também devia ser "viral" para o corrigir...

Lá está: corrigir, emendar, isso, bom, isso pede-se a um jornal – não se pede a um blog...

 

Adenda tardia: para quem queira ver neste texto a defesa simples de José Sócrates, vale a pena ler este post, onde sou bastante claro sobre o facto de não considerar o voto.

 

3 comentários

  • Sem imagem de perfil

    José Júlio 15.04.2009

    A Joana escreveu um comentário e não um post. Se escreveu um post onde está o link para o dito? Enganou-se. Adiante.

    A questão aqui parece-me apenas uma: a liberdade de expressão é a liberdade de expressão que é a liberdade de expressão. Tautológico? Sem dúvida. A liberdade de expressão tem limites? Não deve ter. Mas tem sempre duas mãos. Quem vai à guerra, dá e leva.

    João Miguel Tavares escreveu livremente o que pensa e Sócrates é livre de se sentir com as palavras de Tavares.

    O assunto é este.

  • Sem imagem de perfil

    Anónimo 22.04.2009

    Caro José Júlio,

    O caso não é apenas esse. É mais. Tavares, ao escrever o que escreveu tem que ter provas sobre:
    1. licenciatura manhosa
    2. os projectos duvidosos de engenharia na Guarda
    3. o caso Freeport
    4. o apartamento de luxo comprado a metade do preço
    5. o também cada vez mais estranho caso Cova da Beira

    Não é apenas uma questão de pensamento mas antes factual. Tavares tem provas ou não tem provas porque a conclusão de Tavares não é inócua e portanto deduz-se que só pode ter provas. Para cada um destes pontos, Tavares tem que apresentar as provas que o levam à sua conclusão.
    Isto é muito simples.
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