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Pedro Rolo Duarte

01
Jan17

Caso estejamos em 2017…

… Mantenho os desejos de 2016, e não se concretizaram, e gostava sinceramente de perceber a lógica de entalar passas na garganta enquanto se pede o impossível, o improvável, ou pelo menos o que se sabe previamente que não depende de nós. Alinho na coisa, até faço questão de usar passas que trago de casa, e não resisto a pensar que, se assim não for, tudo pode ser ainda pior.
Mas depois leio uma notícia de jornal onde se revela que o ultimo minuto de 2016 tem 61 e não 60 segundos, o que significa que o ano começou um nadinha mais tarde do que assinalámos. Sem querer, regresso à crónica de quinta-feira passada na plataforma Sapo-24.
Foi isto que eu escrevi, oh raios…

“Ao longo dos últimos meses, com as inesperadas mortes que nos apanharam pela frente, com as tragédias (esperadas ou não…) que se abateram um pouco por todo o Mundo, e com surpresas como a eleição de Donald Trump, a ideia mais forte que as redes sociais foram transmitindo - redes quase sempre fracas de ideias fortes… - foi “Xô, vai-te embora 2016, ano aziago, ano mau”. Não há quem não queira 2017 já aí, como se a passagem de um ano para o outro trouxesse mudanças substanciais no correr dos factos. É bom - e faz bem à saúde, de certeza… - acreditar que aquele pequeno salto que damos, à meia-noite de 31 de Dezembro, da cadeira da sala para o chão, pode ser um grande salto, senão para a humanidade, que tem a Lua distante, para as nossas expectativas, que andam tão baixinhas. Não me parece que falhe muito se vos der a má notícia: não muda grande coisa… (Gozo com o tema, mas também salto da cadeira, como as 12 passas e saúdo o novo ano. Secretamente, porém, rio com os factos…)
Na verdade, de entre as incontáveis imperfeições que nos rodeiam, uma das mais risíveis, e que nos põe logo de pé atrás em relação à ideia de tempo e idade, é o calendário que, em teoria, nos rege. Digo em teoria porque, embora o tenhamos adoptado há mais de 500 anos (houve países que só no Século XX se renderam…), ele varia para outros quadros em uso - dos hindus aos chineses, dos iranianos aos budistas - e está recheados de pormenores inventados pela comissão de sábios que o Papa Gregorio XIII nomeou para o produzir. O calendário é uma espécie de rascunho de Excel que só usamos porque, generalizado, acabou por aproximar os povos. E nessa sua premissa, o Papa tinha razão.
O número de acertos, emendas, excepções e delírios que o calendário Gregoriano tem levam-me a pensar que, se fosse tomado à letra sem essas pequenas “rasuras”, no sábado não acabaria 2016 - ou já teria acabado há muito. Por causa deste nosso “mapa” do ano, desapareceram dias na História (5 a 14 de outubro de 1582, dizem os entendidos),  os anos têm de ser divisíveis por 400, foi forçadamente corrigida a medição do ano solar, e até para a Igreja deu-se como adquirida a confusão: a Páscoa nunca mais teve dia certo, ainda que tenha uma regra aplicável…
Usando a ideia batida do copo meio-cheio e do copo meio-vazio, esta imperfeição em que vivemos pode dar algum jeito. Todos queremos que 2016 vá embora, porque foi um ano de muita dor, de muita tristeza, de muita desilusão - mas, por outro lado, talvez já tenha ido, ou talvez não seja inteiramente culpado. Talvez esta nossa contagem de tempo valha tão pouco que não haja balanços para fazer nem perdas e ganhos a considerar.
No sábado, fingiremos que entramos num tempo novo - e se a vontade for muita e de muita gente, vai certamente ajudar a dar um novo impulso ao que temos pela frente. As efémeras alegrias de um Europeu ou de um português na ONU não medem forças com os que partiram e nos farão falta, nem com as tragédias humanitárias que não cessam nem por nada - cada facto vale por si, e para cada um de nós tem o seu valor. Este calendário mal amanhado com que o Mundo se rege tem essa qualidade certamente não calculada: o valor do tempo em que se integra já inclui o caos, o desnorte, a imprevisibilidade - mas também a liberdade de pensarmos que não há coincidências ou tudo não passa da soma de muitas coincidências.
Num caso como noutro, alivia-me pensar que o calendário não manda em tudo. Porque é tão imperfeito quanto nós. E ainda mais aleatório.
Pronto. Vou entrar em 2017 hoje ao fim do dia. Está decidido”.

…E como se não bastasse, ainda nos deram um segundo indesejado e atrasaram um desejado segundo. 2017?

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