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Pedro Rolo Duarte

20
Out17

Fogo português

(Ontem, quinta, na plataforma Sapo24)

 

Há duas formas de observar e analisar a tragédia que este Verão se abateu sobre Portugal: ou continuamos a converter qualquer acontecimento num argumento para a disputa política entre os Partidos que governam e que estão na oposição, e tudo continuará como está; ou abrimos os olhos e reconhecemos que há factos que estão bem para lá do imediatismo da politica de um Governo com dois anos de vida, ou de uma ministra claramente inepta para a função.

Prefiro o segundo caminho. Não consigo atribuir especificamente a este Governo, a António Costa, ou atè à Ministra Constança Urbano de Sousa, a responsabilidade final pelos mortos, feridos, terrenos queimados, casas e fábricas destruídas. Foi óbvia a demissão da ministra, como é óbvio exigir explicações sobre como se consegue repetir o mesmo erro em quatro meses. O Presidente da Republica foi exemplar na forma como, no seu discurso de terça-feira, colocou a questão, clara mas elegantemente. No entanto, por mais que queiramos responsáveis imediatos, todos os testemunhos credíveis de especialistas em matéria florestal, de protecção civil, de gestão de crise, vão desembocar numa mesma palavra: Portugal.

Portugal e os portugueses. O nosso eterno laxismo, a nossa doce negligência, a velha ideia de que “só acontece aos outros”, o crime sem castigo, a investigação judicial que morre solteira, e uma forma de vida que não contempla desvios à norma. Basta começar a fazer perguntas: como é possível um idoso de 91 anos, com dificuldades de locomoção, viver sozinho numa aldeia com 20 habitantes? Quem permite tamanho abandono? Como é possível as empresas de energia e telecomunicações agirem livremente na colocação de postes e cabos ao ar livre, quando até os prédios de Lisboa que são renovados criam sistemas de cablagem internos? Como é possível a descoordenação que leva a baixar as guardas da defesa da floresta quando as autoridades ligadas à meteorologia avisam que o calor vai continuar? Como há ainda casas, por esse país fora, onde as botijas de gás convivem com as paredes dos quartos ou das salas? Quem põe o pauzinho na engrenagem da investigação criminal? Como se permite que haja aldeias cercadas por combustível vegetal sem que Estado ou cidadãos cuidem de se proteger?

As perguntas não param, e todas reflectem uma mesma atitude, que não respeita apenas aos Governos e às autoridades: respeita a todos nós. Pouco cuidadosos, crentes numa infalibilidade que não existe, e sempre surpreendidos – seja pela tragédia, seja pelo milagre. Depois da surpresa vem a solidariedade, e depois da solidariedade vem o queixume: “o dinheiro nunca cá chegou, ficou pelo caminho”.

Está tudo por refazer em matéria de política florestal. Como bem recordou Miguel Sousa Tavares, há 30 anos que o Eng. Gonçalo Ribeiro Telles vem avisando para este facto. Há um Portugal por reconstruir, certo, e crime por desmantelar. Mas esse não é só dever do Estado, mas de todos os portugueses. Nem Governo nem oposição se mostraram interessados em tornar urgente o que, há quatro meses, toda a gente viu que era urgente. Porém, também não notei, depois dos primeiros actos solidários com Pedrogão-Grande, movimentos da sociedade civil insistirem na necessidade de estudar, planear, e agir.

Nada do que escrevo invalida a responsabilidade formal, directa, imediata, de quem governa, e de quem se desgoverna na coordenação de meios, na definição de estratégias, e no trabalho no terreno. Se o final deste processo for justo, há um generoso número de figuras que devem ser pura e simplesmente removidas do caminho. Mas tal “limpeza”, por si, não resolve o essencial – que é a mudança de atitude que tem de atravessar toda a sociedade portuguesa, do mais humilde pastor ao presumido governante.

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